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domingo, 16 de fevereiro de 2014

[À Lareira com] - Célia Correia Loureiro


À Lareira com....Célia Correia Loureiro, sobre o novo livro "A Filha do Barão"

- Começaste por escrever “Demência”, publicado pelo Alfarroba Editora em 2011. Depois disso já publicaste “O Funeral da nossa Mãe”, também pela Alfarroba Editora, e , recentemente, “A Filha do Barão”, pela Marcador. Olhando para trás, como vês todo este percurso e como é que te sentes agora?
Sinto que o meu trabalho se tem vindo a “profissionalizar” gradualmente. Agora tive a sorte de me ter tornado uma aposta séria, tanto por parte da Marcador, como por parte da RTP que confia na Marcador. Com isto penso que posso estar a dar os primeiros passos numa longa carreira de escritora.

- O tempo e a experiência são factores importantes no desenvolvimento da escrita?
Como em tudo. A cada novo livro sinto essa melhoria. Mas não é só o tempo que determina o desenvolvimento da escrita – a experiência conta, a temática abordada e alma que se coloca em cada obra também são factores importantes no desenvolvimento de uma escrita mais fluída e mais expressiva.

- Quais os maiores desafios que sentiste nestes 3 anos de escrita?
Desafios em termo de escrita? Tempo, motivação e “inspiração” não são coisas de que um autor se possa valer a todo o instante. Por vezes é-se obrigado a esperar pelo momento adequado para escrever o trecho tal. Também a distribuição e a visibilidade dos dois primeiros livros não foram da dimensão desejada, mas foram um começo. Chegar a todos os leitores que tenham interesse em ler-me tem sido a minha maior preocupação. Isso e superar-me a cada novo livro.

- Quais as maiores diferenças que notas e sentes em ti e na tua escrita, de antes para agora?
Os pormenores técnicos vão melhorando. Questões gramaticais, gralhas e vícios de escrita menos correctos vão sendo corrigidos e vão-me sendo apontados. Tento removê-los das novas obras em que estou a trabalhar. Também tomo atenção a outros detalhes que fazem um “bom” livro e que ignorava. Tudo para que a minha imaginação chegue com a maior clareza possível ao leitor.

- “A Filha do Barão” é a tua mais recente obra publicada, e desta vez pela Marcador. Conta-nos um pouco sobre a pesquisa para este livro e como surgiu a ideia de o escreveres e, claro, a oportunidade de o publicares por esta chancela da Editorial Presença.
A pesquisa foi trabalhosa, como tenho vindo a explicar. Muitas tardes na biblioteca a esmiúçar a época. Sempre quis escrever um romance histórico e, devido ao grau de qualidade que creio que o mesmo atingiu, decidi que precisava de lhe conseguir a atenção que merece. Tive a sorte de a Marcador  reconhecer esse potencial.

- Tens em mãos algum projecto literário que nos possas desvendar?
Tenho vários. Um de linha histórica – vários romances relacionados com esta mesma família e que enaltecem a História de Portugal. Outro de linha fantástica – vamos ver se consigo ficar satisfeita com este projecto. Depois também tenho dois romances contemporâneos em manga.

- Quando escreves tens uma rotina de escrita? E tens rituais para te inspirares enquanto escreves ?
O meu ritual para escrever implica isolar-me (das minhas irmãs ruidosas) sempre que posso. Música é uma constante, sim. Ajuda-me a mergulhar num sentimento e a regressar-lhe sempre que quero. Dá muito jeito para trabalhos contínuos. Todos os meus livros têm umas quantas canções associadas. Quando as oiço ainda regresso à sua produção.

- Com o que sonhas quando olhas para o teu futuro enquanto escritora?
Sonho em continuar a tocar o coração dos leitores com as histórias que crio.

- Como vês a literatura portuguesa nos dias que correm?
Em franca melhoria. Há muitos novos escritores, muitas novas ideias, muitos novos estilos. Acho que daqui a uns anos o mercado literário português pode muito bem ter sido invadido por autores nacionais. Seria óptimo abrir espaço para o que é nosso.

- Para terminar, que mensagem podes deixar a todos os pequenos autores nacionais (que também eles nos lêem)?

Aconselho-os a não se acomodarem; podem melhorar. Devem melhorar.  Devem esforçar-se, não desistir e, sobretudo, desligar-se das ideias pré-concebidas da literatura internacional que nos chegam. Criemos algo de nosso e de único.

domingo, 3 de novembro de 2013

[À Lareira com] - Liliana Lavado


À Lareira com...Liliana Lavado, autora de "Inverno de Sombras"



-Fala-nos um pouco sobre ti
Natural de Aveiro. O que quer dizer que muitas vezes troco os “v” pelos “b”.
Filha única, com todos os defeitos e virtudes que o excesso de atenção provoca.
Li o meu primeiro livro já na adolescência e apenas por acidente.
Adoro viajar, mas detesto aviões. Bebo café sem açúcar. Sou preguiçosa. Tenho um fraquinho por tudo o que seja da década de 60. Farto-me de apanhar multas de estacionamento. Gosto de desenhos animados, bons vilões e pessoas que têm opinião… se me quiserem calar, ponham-me um livro nas mãos.

- És licenciada em markting. Como e quando a paixão pela escrita começou a “palpitar”?
A escrita começou justamente com a faculdade. Foi um impulso de momento.
Estava numa livraria à procura de um livro e não encontrei nenhum que fosse aquilo que ‘gostava de ler naquele momento’, e foi então que me questionei: se não havia um escritor que fosse capaz de escrever a história que eu queria ler, porque é que eu não o deveria fazer?
Saí da livraria sem nenhum livro, cheguei à faculdade, liguei o portátil e comecei a escrever.

- Em poucas palavras, o que a escrita significa para ti?
Posso usar apenas uma: liberdade.

- Como surgiu a ideia de escreveres o teu primeiro livro?
O meu primeiro livro surgiu da ‘frustração daquela ida à livraria’. Confesso que quando comecei a escrever não tinha uma linha de história muito definida, apenas sabia que queria escrever algo com o Alentejo como cenário e uma família ‘infeliz à sua própria maneira’ como diria Tolstoy.

- De que forma sentes que, desde o primeiro livro até agora, a tua escrita cresceu? O que é que uma autora sente ao dar-se conta dessa evolução?
A cada livro percebo que tenho mais facilidade em ‘ver’ para onde vai a história, em dar voz aos personagens e principalmente: não desesperar quando sinto que perdi o rumo do livro.
 
- Publicaste recentemente o livro “Inverno de Sombras” pela Marcador. Como surgiu a ideia para este livro? E como surgiu a oportunidade de publicares com esta editora?
Lisboa foi a inspiração para escrever ‘Inverno de Sombras’. Adoro a cidade e tenho imensas saudades dos anos em que lá vivi.
Quanto à publicação, tenho de confessar que foi graças aos leitores e bloguers. Foi o entusiasmo deles que fez com que se espalhasse a palavra, e nascesse um murmurinho digital composto de imensas opiniões apaixonadas, que por sua vez, atraíram a atenção da Marcador para os meus livros.

- Tens já um público que te segue. Como é que isso te faz sentir?
É estranho, mas acaba por se tornar divertido quando conheço leitores que se apaixonaram de tal forma pelas personagens que, tal como eu, falam delas como se realmente existissem.

- O que é mais gratificante em ser escritora/autora?
Mais uma vez: a liberdade. Poder escrever o que me apetece, quando me apetece, da forma como me apetece. Não há nada mais gratificante do que ser livre para criar e saber que essas histórias vão passar de leitor em leitor e cada um vai vivê-las à sua própria maneira.
 
- Tens algum projecto em mãos, actualmente? Se sim, o que nos podes dizer sobre ele?
Neste momento estou a escrever ‘Fantasmas de Pedra’, a sequela do ‘Inverno de Sombras’, que vai contar a história do Claude e da Andrea, e trazer de volta a Isadora e o Danton. A sinopse já está disponível na página do livro no Goodreads.

- Vives na Suiça. Para além da família e dos amigos, claro, de que mais sentes saudades de Portugal?
Da comida, sem qualquer dúvida. Quando tenho uma viagem de regresso, deixo de comer dias antes para me preparar para os ‘exageros’ que se seguem.

- Como te sentes ao saber que tens leitores “além fronteiras”, e que mesmo estando longe é na tua terra natal que tens muitos dos teus leitores?
É muito ingrato estar longe. Senti-o em especial quando o ‘Inverno de Sombras’ foi lançado e nem sequer tinha o prazer de entrar numa livraria e o ver nas prateleiras. Mais uma vez, valeu-me a generosidade e o entusiasmo dos leitores que me acompanharam desde muito cedo e que me foram sempre enviando fotografias quando se cruzavam com o livro.

Autora na feira do livro de Lisboa 13'
- Para terminar, deixa uma mensagem aos leitores do tertúlias, muitos deles teus fãs e, alguns, conhecidos.
Aos leitores do tertúlias que lêem esta entrevista, quero obviamente agradecer o interesse pelo meu trabalho e o tempo para lerem mais estas linhas. Caso sejam um dos leitores que aguardam a continuação do ‘Inverno de Sombras’, podem ficar descansados, o livro pode estar um bocadinho atrasado, mas garanto que é por uma boa causa.

Outros Livros da autora:


Sinopse:
Amigos de infância, Henrique e Amanda nada têm em comum para além de uma paixão por livros e uma amizade que ambos já deram como perdida.
Depois de vários anos de silêncio, ele é um estudante finalista de Literatura Inglesa que olha com receio os dias fora das paredes seguras da Universidade e ela uma aspirante a escritora que se esvanece no tumultuo de um grupo de amigos problemático.
(ver mais aqui).

Sinopse:
Herdada ao longo de gerações, e aperfeiçoada por cada uma delas, a Quinta do Lago apaixonava todos aqueles que um dia tinham o privilégio de a conhecer.

A história nascida da memórias dos camponeses, contava que o mais antigo antepassado dos Vaz se tinha apaixonado de tal forma pelo lago de águas verdes e azuis, que o seu amor lhe invadiu o sangue e continua a viver (ver mais aqui)



ebook
Expected publication: December 1st 2013 (first published January 1st 2013)
edition language
English
(ver aqui)


Sinopse:
Numa pequena vila costeira do norte do país, um acidente do destino faz com que dois mundos se toquem.

Ivana, uma adolescente sonhadora com cabelos cor de fogo, está prestes a viver o seu amor de infância com Bernardo, quando uma figura de negro envolta em mistério entra na sua vida trazendo consigo a magia e pondo tudo em causa.(ver mais aqui)

domingo, 15 de setembro de 2013

[À Lareira com] - Bruno Araújo


À Lareira com...Bruno Araújo, autor do livro "Cartas que Falam"


- Fala-nos um pouco sobre ti.
Isto faz-me lembrar os Alcoólicos Anónimos lol Aqui vai: chamo-me Bruno Araújo, tenho 36 anos, natural de Setúbal, solteiro, e não sou bom rapaz (risos).

- Quando e como surgiu impulso para a escrita?
Houve uma terapeuta que me pediu para escrever uma carta dirigida aos meus pais, e na altura senti que foi algo tão libertador que tive a necessidade de deitar “tudo cá para fora”, e assim nasceu o “Cartas que falam”.

- Em poucas palavras, o que a escrita significa para ti?
É algo único, porque ajuda-te a soltar as tuas emoções, sejam elas positivas ou negativas. Eu atrevia-me a dizer que é algo similiar a praticar desporto, porque ajuda-te a abstrair do que se passa à tua volta.

- Publicaste, em 2012, o livro “Cartas que Falam”. Um livro sobre um tema algo polémico, e com uma componente bastante emocional. Quando e porquê surgiu a ideia/oportunidade de escrever este livro?
Depois de me ter sido, de forma indirecta, dito que a minha vida era uma farsa, decidi pôr no papel este livro, não só para me libertar, mas também para transmitir às pessoas que sofrem dos problemas abordados, a mensagem de que não estão sozinhas.

- De alguma maneira, escrever “Cartas que falam” foi algo libertador para ti?
Sim, foi a melhor terapia que tive até hoje, e foi completamente transformadora para mim, porque a partir do momento em que o comecei a escrever, todos os medos, pânicos e ansiedades com que vivia, desapareceram de forma miraculosa.

- Qual a importância que julgas ter a existência de livros sobre estas temáticas difíceis, polémicas, e poucas vezes abordadas?
Creio ser muito importante, porque ainda vivemos numa sociedade de muitos tabus, e onde problemas como estes são, muitas vezes,  ignorados, porque a maioria das pessoas pensa que só acontece este tipo de situações aos outros. Fiquei surpreendido pelo número de pessoas que se identificou com algumas passagens do livro, o que não deixa de ser preocupante e merecedor de uma reflexão por parte de todos nós.

- Tens algum novo projecto em mãos?O que nos podes divulgar sobre ele?
Sim, tenho, como já sabes lol Posso adiantar que será um romance histórico que se desenrolará durante os princípios do século XX, e no qual serão narrados, em detalhe, acontecimentos como o Regicídio, o 5 de Outubro de 1910, a intervenção militar portuguesa na 1ª Guerra Mundial, e muito mais eventos e detalhes da época que são desconhecidos ou pouco falados . Acima de tudo, quero escrever um livro com bastante conteúdo e qualidade, mesmo que isso implique uma maior demora na sua publicação. 


- Viveste em Espanha durante 4 anos. De que maneira isso te influenciou enquanto pessoa, profissional da tua área e, claro, enquanto escritor?
Foi algo enriquecedor a todos os níveis: a nível pessoal, foi importante porque foi uma experiência onde travei conhecimento com uma cultura e pessoas diferentes das que estava habituado; a nível profissional, tive a felicidade e o mérito de trabalhar em grandes empresas mundiais, o que contribuiu para ter o posto de trabalho que actualmente possuo em Portugal. Como escritor, permitiu-me ter uma visão mais abrangente do Mundo e ter uma maior cultura geral, alicerces importantes para alguém que queira seguir uma carreira literária.

- Em 2010 regressaste à tua terra natal. O que te fez regressar?
Em primeiro lugar, deixa-me dizer algo que tive a oportunidade de ver em “directo, ao vivo e a cores” : esta crise actual começou a ser mais visível em Espanha - os salários naquele país começaram a descer a um ritmo avassalador, a construção (principal motor da enconomia espanhola nos últimos anos) abrandou, e o desemprego subiu em flecha. Tive a intuição de que a hora de regressar tinha voltado, até porque entretanto fiquei desempregado e não via melhorias no mercado laboral de Espanha. 

- Como te sentes ao receber o feedback, por vezes não tanto positivo, do teu livro?
As pessoas são livres de gostar de coisas diferentes, e vejo isso com naturalidade. Prefiro concentrar-me nas enormes manifestações de carinho que tenho tido por parte do público, em que tenho sido bastante elogiado pela minha determinação, coragem e forma de escrever. 

- Para terminar, deixa uma mensagem aos leitores do blog, alguns deles também leitores do teu livro.
Lanço-lhes o apelo de que continuem a apoiar os autores portugueses como o têm feito até agora, e que privilegiem mais o que é nosso, em detrimento do que é estrangeiro. Somos, historicamente, um povo com uma crónica falta de auto-estima, e está na altura na altura de termos orgulho naquilo que somos, a começar pela cultura, identidade diferenciadora de qualquer nação. Por último, em destaque para as minhas ” beta-readers”, e por ordem alfabética - Elisabete Batista, Ivonne Zuzarte, Margarida Rodrigues – sim, tu, pá ehehe) e Patrícia Santos – a minha enorme gratidão por aceitarem o desafio que lhes lancei e a garantia de que escreverei um livro com qualidade, e do qual elas  sintam orgulho em terem contribuído para o seu processo de feitura. Ah, e por favor, tenham paciência comigo relativamente ao tempo que ando demorado para vos dar mais páginas para lerem… Tudo farei para que se sintam compensadas pela demora, através da qualidade que estou a imprimir à obra ;)  

domingo, 8 de setembro de 2013

[À Lareira com] - Maria Luís Castro


À Lareira com...Maria Luís Castro, autora de "O Mundo proibido de Daniel V." e "Os teus desejos são ordens".

- Fale-nos um pouco sobre si.
Gosto de escrever. Gosto, sobretudo, de pessoas. O mais importante para mim, é saber que depois da meia idade, já passei a esquina dos cinquenta anos, é possível fazer coisas, estar na vida com entusiasmo. Durante muitos anos escrevi nos jornais, fiz rádio, televisão e até trabalhei numa agência de notícias. Dou aulas e tenho uma vida de família muito intensa. Todos os livros que escrevi anteriormente não se assemelham a esta experiência que considero um dos maiores desafios que vivi.

- Quando é que começou a sentir a paixão pela escrita?
A paixão pela escrita começou cedo, na redacção dos jornais, com jornalistas da velha guarda que me diziam que eu não podia deixar de ler A ou B. Comecei cedo, tinha vinte anos. Em casa dos meus pais não existiam muitos livros. Nunca houve esse hábito. Portanto, a paixão pela leitura começou cedo e a escrita começou por ser um namoro jornalístico. Durante muito tempo o registo jornalístico acompanhou-me e até pensei que seria difícil sair dele. Lentamente, com o exercício, com a teimosia, fui criando outras formas de escrita e, hoje, é-me impensável não escrever todos os dias. 

 - Numa palavra, o que a escrita significa para si?
Vida. Escrever é estar na vida e observar o mundo. Sou uma pessoa com um interesse muito grande pela sociologia, pela caminhada que a Humanidade fez, sobre os fenómenos que mostram o melhor e o pior do ser o humano. Quando uma história nasce, um livro, é sempre sobre vida.

- Porque decidiu ser jornalista?
Foi um acaso. O meu pai conhecia uma pessoa na redacção do jornal, precisavam de pessoas para rever textos e foi assim que tudo começou, portanto podemos dizer que antes de ser jornalista, fui copy desk, ou seja, revisora.

- Publicou, o ano passado, O Mundo Proibido de Daniel V., e este ano Os Teus desejos são ordens. Como surgiu a ideia/oportunidade de escrever livros eróticos/sensuais?
A editora lançou-me um desafio depois de um almoço entre amigas. A conversa girava à volta dos homens e das fantasias não cumpridas – ou por cumprir – das mulheres. Falámos, durante esse almoço, dos clichés que existem, da mentalidade curta, das ideias feitas e de como a literatura erótica sempre foi uma constante, embora “escondida”. Um clássico da literatura erótica é a “História de O”, por exemplo, de uma autora francesa, Anne Desclos, publicado em 1954. Li-o muito nova, voltei a ler agora e posso assegurar que é muito mais hard core do que estamos a ver agora no mercado. Em resumo, o erotismo sempre foi um tema da escrita – como tantos outros temas – e pode ser feito com bom ou mau gosto. O desafio era escrever uma história contemporânea que não se limitasse à descrição de potenciais encontros de índole sexual, mas cujo enredo levantasse questões, estivesse dentro dos tempos de hoje. Achei graça e pensei: e porque não?

- É um género que encontramos pouco escrito por autores portugueses. Porque acha que isso acontece?
Não é fácil escrever sobre sexo e muito menos assumir que o fazemos de forma explícita. Não é, se se quiser, literatura, é divertimento com uma pitada de ousadia? Pode ser o que entenderem, é-me indiferente, desde que cumpra o objectivo: agradar o/a leitor/a. Os grandes escritores portugueses têm cenas de sexo nos seus livros e podia enumerar vários exemplos, mas é melhor dizer aos leitores para procurarem os autores nacionais e deixarem-se surpreender, não é?

 - No último ano deu-se um grande boom de romances eróticos, especialmente de autores internacionais. Já leu algum? O que acha do género enquanto leitora e mulher?
Li as Sombras de Grey, por curiosidade, li os três volumes e posso dizer duas coisas: como leitora gostei de algumas passagens e detestei algumas que eram apenas a repetição do que já tinha sido escrito. É uma narrativa preguiçosa, num certo sentido. Acresce que acho improvável algumas das situações relatadas, embora admita que em ficção tudo é possível, basta ter imaginação. Não li mais nada, até agora, até por ter estado embrenhada em escrever estes dois volumes, procurando um fio condutor que permitisse explorar outros assuntos, actuais, assuntos que precisam de reflexão. 

 - Tem recebido, certamente, algumas críticas aos seus livros. O que isso significa para si e de que modo ajuda ao seu desenvolvimento como escritora?
A maioria das críticas surge de forma anónima, por email para a editora. São laudatórias e eu fico feliz por ter conseguido proporcionar um bom momento de leitura a alguém. O melhor email que recebi dizia que o livro, em vez de uma história banal de amor-ódio e sexo, fez com que a leitora ficasse mais atenta a determinadas questões relacionadas com a escravatura das mulheres e, ao mesmo tempo, tinha apimentado a vida sexual com o marido. 

- A personagem principal, Verónica, é jornalista. Até que ponto esta personagem tem alguma parte de si, M.L.Castro?
Não sou parecida com a Verónica e tenho pena, não tenho aquela idade, aquela figura e não teria a coragem que ela demonstra ter ao enfrentar uma rede de máfia. Mas é evidente que a minha experiência como jornalista me permitiu relatar e descrever ambientes e formas de pesquisa que são do meio.

- Porquê escrever sob um pseudónimo?
Por não ter vinte anos, tenho uma família, um neto que nasceu há pouco e não me apetece ter conversas desagradáveis com ninguém ou ser julgada por ter aceite este desafio. As pessoas gostam dos livros, lêem, mas até são capazes de o esconder, apenas por preconceito, para dizerem que estão a ler, sei lá, os Maias revistos por uma série de autores, colecção que está a sair no jornal Expresso e cujo conceito me ultrapassa largamente. Há um certo pudor. As mulheres – e os homens, já que tenho homens-leitores – não deixam de ler, contudo preferem manter o recato, afinal sempre é um livro onde se diz que um pénis entrou numa vagina e os portugueses são muito pouco abertos a falar sobre a sexualidade. Não deixam de ter interesse por causa disso e também não deixam de comprar e ler.

 - Tem algum novo projecto em mãos? Teremos mais aventuras da Verónica para acompanhar?
Nunca se sabe. Há um ditado que diz que o futuro a Deus pertence e eu não sou uma mulher que goste de fazer planos. Gosto de ser surpreendida na vida e nos desafios que ela me traz.

 - Para terminar, deixe uma mensagem aos leitores do Tertúlias à Lareira, muitos deles mulheres que se apaixonaram por este género de leitura.
Espero que continuem a ler e que possam partilhar o vosso interesse com outras pessoas. Pessoalmente, agradeço a imensa generosidade e o facto de se comprarem os meus livros, de os lerem e acarinharem. A maioria das pessoas não tem ideia do trabalho que dá escrever um livro e, muito menos, uma sequela. Esse reconhecimento é gratificante e eu estou muito contente por ter chegado a tanta gente.
 Obrigada

domingo, 1 de setembro de 2013

[À Lareira com] - Carina Rosa






À Lareira com...Carina Rosa, autora do livro "O Intruso".




Fale-nos um pouco sobre si
Bem, falar de nós próprios é sempre complicado, mas sou, e penso que se passa o mesmo com a maioria dos escritores, muito reservada. Gosto do meu espaço, do meu silêncio e da minha escuridão, só eu, a minha folha de papel, os meus personagens e o meu mundo. Sou bastante tímida e gosto de me esconder por detrás dos personagens que dão vida às minhas histórias. E é mágico como posso criá-los de qualquer forma, mesmo o oposto daquilo que sou e, por vezes, um pouco daquilo que gostaria de ser. Não sou muito faladora, a menos que esteja com alguém que conheça há muitos anos e com quem tenha um elevado grau de afinidade, mas quando falo sobre as coisas que gosto, aí não consigo parar. (risos). Acho que sou um pouco estranha, por vezes, ou talvez os outros é que sejam estranhos. Não sou de saídas à noite e muitos socialismos. Prefiro ficar na minha paz com um bom livro nas mãos e uma boa história na mente. E quando não tenho um livro nas mãos, ando sempre a sonhar e a pensar em histórias para escrever. Acho que vivo, muitas vezes, num mundo à parte e sinto que vivo várias vidas ao mesmo tempo. Penso que só um leitor e um escritor consegue sentir isto, porque ler ou escrever uma história é mais do que um conjunto de palavras num papel. São vidas guardadas em livros que vamos recordar para sempre e conseguimos vivê-las com tal intensidade que acabam por ser nossas. É isso que eu quero fazer para sempre. O que mais posso dizer sobre mim? Adoro palavras, cinema e teatro, adoro ginástica e dança e, claro, música, que tanto me inspira. E adoro os meus verdadeiros amigos e a minha família. Tenho tanta sorte por tê-los junto a mim! Não me abro com muita gente. Tenho aquelas pessoas especiais que sabem quem são, tenho quem me compreenda e quem não me compreenda. Quem me compreende, tem tudo de mim, o melhor e o pior, quem não me compreende, nunca irá descobrir-me, talvez porque eu viva sempre em cima, no sonho, e tanta gente viva constantemente em baixo, na terra. Mas o que será de nós sem os sonhos? O que levamos daqui? Muitos dizem que sou especial. Para outros, não passo de uma estranha. 

Quando é que a escrita se tornou importante para si?
Penso que a escrita sempre foi importante para mim, desde que comecei a ler a escrever e desde que construí uma barreira enorme entre números e letras, o ódio e o amor separados e distintos. Sempre gostei de passar os meus sentimentos para o papel, desde aquela fase da adolescência e das grandes paixões, em que gostava de escrever poemas de amor e de guardá-los na minha gaveta, para que mais ninguém os visse. Gostava de escrever sobre mim e sobre aquilo que sentia, até que percebi que não era sobre mim que eu gostaria de escrever. Percebi que gostaria de escrever sobre pessoas conhecidas e desconhecidas e coisas que nunca me aconteceram, sonhos irreais que eu gostaria de transformar em realidade. Personagens fictícias com vidas fictícias, a quem eu pudesse moldar o destino, entre a felicidade e a infelicidade, por entre amores e desamores. Tentei muitas vezes começar um manuscrito, mas penso que me faltava muita coragem para acreditar em mim mesma e avançar, sem medos, nem pudores. Podia tê-lo feito à primeira, mas não seria bem feito. Penso que é necessária alguma maturidade para escrever e mesmo quando publicamos o primeiro livro, apercebemo-nos de que não a tínhamos. Ela vai crescendo ao longo da vida, como as nossas aprendizagens, e nunca estaremos totalmente satisfeitos. Penso que comecei demasiado tarde, ainda assim. Gostaria de ter arriscado mais cedo, para crescer mais cedo, mas a vida é o que tem de ser, quando tem de ser e quando estamos preparados para isso. Recordo-me de dizer à minha mãe, em criança, que gostaria de ser escritora. É claro que ela me disse que isso não seria uma vida estável para mim e incentivou-me a tirar um curso relacionado com letras. Acabei por tirar Ciências da Comunicação e trabalhar como jornalista em imprensa escrita, radiofónica e televisiva, mas se me perguntarem, é a escrita criativa e romanceada aquilo que eu gostaria de fazer para o resto da vida.
  
Numa palavra, o que a escrita significa na sua vida?
Esperança. Escrever não é mais do que esperar com esperança e sonhar com esperança. A expectativa de algo melhor. Quando eu imagino, sonho e escrevo no papel, estou a criar um mundo novo e posso fazer dele o que quiser. O nosso frágil corpo humano pode estar velho, fraco, ou mesmo jovem e adoentado, mas os sonhos, ninguém nos pode tirar. Quando escrevo, é isso que sinto, e se visse um doente no hospital, dir-lhe-ia: “Leia um livro. Saia da sua vida para viver outra, maior e melhor.” Como diria Fernando Pessoa, “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais fácil de ignorar a vida”. 

Publicou o seu primeiro livro, “O intruso”, em 2012, pela Chiado Editora. Como surgiu a oportunidade? Em que se inspirou para escrever esse livro?

Comecei a escrever «O Intruso» em Maio de 2012. Confesso que não fazia a mínima ideia do que estava a fazer. Só queria escrever e não parar. Não tinha uma história definida quando comecei a debitar palavras para o computador, embora tivesse uma nuvem muito esbatida daquilo que queria na mente: vida após da morte. O que acontece? Como? O medo e o fascínio pelo desconhecido. O que há do outro lado? A parte do romance era a única certeza. Sempre fui fã de romances contemporâneos e tenho uma biblioteca deles em casa, mas queria uma história romântica que interligasse simultaneamente este meu fascínio pelos temas ocultos. Acho que não podia começar por outro lado. A história foi crescendo, primeiro com a Sara, depois com o Martim, depois com o Rodrigo, que, curiosamente, não existia inicialmente nesta minha ideia maluca de conceber um livro. Pensei que o vilão não seria vilão, mas vilã. A má da fita era, inicialmente, a mãe da Sara, mas depois de algumas noites de insónia, pensei: Não. Nem pensar! Quem mais seria o vilão senão um noivo morto inesperadamente num acidente, que acorda daquele mundo espiritual para a assombrar? Não sei de onde surgiu a ideia, nem a inspiração, mas penso que somos sempre influenciados por aquilo que observamos e lemos. Eu fi-lo à minha maneira e embora admita que se o fizesse agora, faria diferente e melhor, «O Intruso» será sempre o meu livrinho de bolso, o primeiro e o mais pequenino, com falhas e imperfeições próprias de uma principiante, mas que mostram que estamos sempre a crescer e que a vida é uma aprendizagem. Não tive, nem sabia o que eram leitores-beta na altura, por isso entreguei o romance a dois colegas de redação para que o lessem, e depois de poucas alterações, decidi enviar para algumas editoras. A Chiado foi a que me deu, na altura, melhores condições entre as hipóteses que tinha, e decidi arriscar. 

Está para breve, agora em 2013, a publicação do seu segundo livro “As Gotas de um Beijo”, pela Alfarroba. O que nos pode contar sobre este 2º romance?

Confesso que tenho um carinho muito especial por esta segunda obra, pelos personagens, pela história e por cada passagem que escrevi. Vou ainda mais ansiosa para a publicação deste romance do que ia em relação ao «O Intruso». O meu primeiro romance era uma incógnita, mas «As Gotas de um Beijo» foi lido por algumas pessoas e apreciado, e estou ansiosa para que os leitores o devorem e me dêem a sua opinião. Admito que este é mais a minha onda, um daqueles romances queridos de fazer palpitar corações que eu sempre quis escrever.
«As Gotas de um Beijo» trata a história de David, um homem pacato e solitário, desde que o seu casamento de vinte anos terminou. Ele dirige um stand de automóveis que é o seu único refúgio para apagar as memórias do passado, contando apenas com Diana, uma amiga de infância que considera irmã, mas que é mais do que isso. Diana é também ela divorciada e a solidão acaba por atirá-la para os braços de David, mas a chegada de Laura muda tudo, uma mulher ruiva e misteriosa que aparece numa manhã de Inverno para trabalhar na joalharia ao lado do stand. E é aqui que tudo começa. David vai questionar tudo aquilo que viveu no passado, a sua relação com a Diana do presente e o seu futuro com Laura, uma desconhecida pela qual sente uma atracção inexplicável e perigosamente arriscada.  
Esta era para ser a história da rapariga da porta ao lado, e acaba por ser, embora o título não o confirme. Recordo-me do dia em que a imaginei. Estava na redacção do jornal quando uma nova funcionária começa a trabalhar na loja ao lado, e ao olhar para os olhos esverdeados de um dos meus colegas, mesmo em frente a mim, vi o David e dei por mim a imaginar um amor, que ainda não era amor. Um homem de 45 anos, divorciado, a quem eu queria oferecer uma nova paixão e uma história de vida. Ela era jovem e penso que só neste ponto se assemelha à minha Laura. O aspecto físico é outro, a história de vida também, mas o meu colega é o mesmo e a amiga de longa data é real. Diana, é o nome que lhe dei, por ser um nome que adoro e por espelhar tão bem a pessoa que ela é. Lamento tê-la tornado mais deprimente do que é, na realidade, embora tenha tentado passar para o papel um pouco do seu carácter livre, desprendido e divertido. Gostava de lhe ter dado mais, porque é uma das minhas personagens favoritas, mas fiz a história à minha visão e à minha maneira e penso que não poderia tê-lo feito melhor, na altura em que o fiz.
 Durante os longos almoços que partilhámos na nossa cantina, em que eu ouvia as conversas, algumas discussões e gargalhadas destes dois amigos, prometi-lhes que um dia haveria de escrever a sua história de vida. Penso que a rapariga da porta ao lado ainda não existia, nesta altura, mas foi a minha deixa para começar. A Diana tinha sido desde sempre a minha escolha para personagem principal e é uma das principais. Só não esperava apaixonar-me completamente pela Laura, pelo David, e até pelo César e pelo Rui. A história acaba por ser sempre diferente daquilo que imaginámos à partida. É uma relação estranha e incrível, entre o escritor, o papel e a imaginação. Os personagens nascem como cogumelos, as paisagens também, e a história surge.
Dei-lhe três estrelas na primeira versão, embora o meu colega me tenha assegurado que este era o melhor romance que eu já tinha escrito até à data. Depois conheci a Ana Ferreira (Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas, mestrada em ensino e blogger no blog Illusionary Pleasure, designer gráfica e editora na Divergência), e tudo desabou. Passei a acreditar que a história não valia mais do que uma ou duas estrelas e ainda fiquei algumas noites a pensar no que lhe fazer, quando a Ana me pedia conflitos, estrutura e objectivos. Eu achava-os todos na mente, mas não tinha capacidade de explicá-los, e quando ela me explicou a relação entre show/tell, compreendi finalmente. Não basta escrever, é preciso saber fazê-lo, e se não fosse ela, este romance não estaria assim. Acordei numa manhã de sol com tudo na cabeça: O que fazer? A resposta era óbvia: inverter a história, começar pelo fim e reescrever...reescrever tudo, linha a linha. Foi o que fiz, durante alguns meses a deitar-me tarde e a más horas, mas com uma sensação de prazer e realização enormes, quando a Ana aprovava os capítulos e me dizia para continuar. Dei-lhe quatro estrelas na segunda versão e acabei por dar-lhe cinco quando reescrevi pela terceira vez os quatro primeiros capítulos. Dou-lhe cinco, porque é uma história que me envolve, me cativa e me toca como nenhuma outra, e devo aos meus dois grandes amigos desta história e à Ana Ferreira tudo aquilo que consegui escrever. Costumo dizer que a história, em si, era muito boa, só precisava de ser escrita da melhor forma. Acho que o consegui. Ri, sofri, chorei e adorei. É mais do que previa para mim. É um dos meus filhos preferidos, «As Gotas de um Beijo», a história de David, Diana e Laura, e só espero que os leitores possam sentir o mesmo.

Está já a escrever o seu 3º romance, “Anjo do Diabo”. O que nos pode adiantar sobre este projecto?
O «Anjo do Diabo» é um título ainda provisório e vai ser alterado, mas é uma história que me deu imenso trabalho. Escrevi-a três vezes e posso adiantar que, neste momento, estou muito feliz com ela. É uma história que está, de momento, em revisão beta, nas mãos de alguns leitores que tanto me têm ajudado a melhorar os meus romances, a quem agradeço muito, e gostaria de o ver publicado no próximo ano. É uma história com uma base verídica, porque me foi contada, mas acabou por tornar-se fictícia com tudo o que eu lhe fiz. É curioso que, na altura, quando a ouvi, não achei que desse história, mas depois de pensar muito no assunto, arranjei uma forma de dar. É bom quando temos alguma verdade na história. Torna as coisas mais reais. No entanto, eu não gosto de me sentir presa a isso. Gosto de ter o meu espaço para imaginar, criar e escrever, e consegui isso ao transformar esta história. É muito bom quando gostamos daquilo que escrevemos e é isso que sinto com o «Anjo do Diabo». É uma história bonita, sentimental, doentia, forte e muito familiar, que toca muito nos valores da irmandade, da amizade, do amor e do poder da família. Acabou por ser muito melhor do que eu esperava e ainda me espanto quando chego ao final e continuo apaixonada pelo que consegui fazer. Ainda haverá alterações a fazer, mas é sem dúvida um livro que me deixa muito feliz.
A obra trata a história de Clara, uma mulher estragada pelo passado que tem a sorte de se casar com um homem quase perfeito e o sonho de muitas mulheres. Só que ela não consegue ser feliz, mesmo com a felicidade à porta. É uma mulher que não aprendeu a amar e não sabe fazê-lo senão com as pessoas erradas e que lhe fazem mal. O Hugo é um vilão e um amor do passado, mas eu adoro este vilão por não ser um vilão de gema. É uma pessoa má e boa ao mesmo tempo, para amar e odiar simultaneamente, com justificações injustificáveis para aquilo que faz, mas sempre a apelar à pena do leitor. Gostava que os leitores pudessem ver o seu lado bom e que o perdoassem. Eu continuo a tentar fazê-lo. É uma história que me arrebata por completo, por apelar a tudo aquilo que o ser-humano pode e não pode dar, consoante as circunstâncias. É uma obra de extremos e que põe todos os sentimentos à flor da pele.

Tem mais algum projecto literário em mente?
Sim. Neste momento, enquanto o «Anjo do Diabo» está em apreciações, tenho trabalhado naquele que foi o segundo romance que escrevi e nunca publiquei, «O Escultor». É um género diferente, um romance policial, e confesso que só agora me começo a apaixonar por ele. Foi o primeiro romance até agora em que o título me surgiu mesmo antes da história, quando abri um e-mail sobre um festival de esculturas em areia em plena redacção. Pensei que fosse mais fácil de o fazer sair, mas enganei-me. Escrevi-o duas vezes e tinha uma série de problemas, por ser uma história tão complexa e exigir tanta investigação na área policial. Depois de muito tempo em depressão e fortemente medicado, retirei-o da gaveta e estou a dar tudo o que tenho para que ele sobreviva. Escrever um livro nem sempre é fácil. Na maioria das vezes, é difícil e rouba-nos meses e meses a fio a escrever e outros tantos a pensar. Mas há uns mais fáceis que outros, histórias mais simples que outras. Este, para mim, é dos complicados, mas estou a lutar por tê-lo como quero e não vou desistir enquanto não o conseguir. Já começo a vê-lo com outros olhos e penso que os personagens, dentro das folhas de papel, já me lançam olhares de aprovação e um meio sorriso. Quero arrancar-lhes um sorriso aberto e, se possível, que me tirem o chapéu. 

Desde que escreveu e publicou “O Intruso”, como vê e sente o seu desenvolvimento enquanto escritora?
Felizmente, sinto que tenho desenvolvido muito. Tive a sorte de conhecer as melhores pessoas para estarem ao meu lado nesta difícil jornada. Desde a publicação do meu primeiro livro, tenho conhecido os melhores leitores-beta que, sem pedirem nada em troca, me têm ajudado a melhorar os romances, seja ao nível da fluidez da escrita, seja em termos de enredo e de criação de personagens. Tenho aprendido imenso sobre estrutura de texto e agradeço essencialmente à Ana Ferreira por ter perdido tanto tempo comigo, a ensinar-me e a rever os meus textos. De algum modo, sinto-me lisonjeada, porque quero acreditar que o fez por saber que valia a pena. Tenho-me esforçado para isso, para que valha sempre a pena. Aconselho todos os escritores a nunca temerem as críticas, porque elas são necessárias para que cresçamos sempre. Penso que com uma boa dose de humildade, reconhecendo sempre os nossos erros e a nossa pequenez, sempre com uma enorme força de vontade para melhorar, chegamos longe. 

O que é mais gratificante em ver os seus livros publicados?
Poder alimentar os sonhos dos leitores, fazê-los sonhar, nem que por umas horas, e se possível, apaixonarem-se uma, duas, três vezes. Fazê-los passar momentos inesquecíveis e provocar-lhes um sorriso no rosto, uma gargalhada alta ou uma lágrima a brotar dos olhos. Todos precisamos de sonhos. É gratificante ler e ouvir os leitores falar sobre o livro e os personagens como se a história fosse real e tivesse acontecido em alguma das suas vidas passadas. É isso que eu quero, que o autor deixe de existir por detrás das palavras. Que a história seja tão boa que o leitor se envolva completamente e entre de cabeça. Quero que a história seja boa a ponto de levar o leitor a sonhar com ela mesmo depois de ter lido, que o faça feliz por instantes, levando-o a esquecer os problemas da vida, e que seja mais uma aprendizagem. 

Tem recebido algum feedback dos seus livros, em especial através de blogs e grupos literários. O que isso a faz sentir? De que modo isso a ajuda a desenvolver enquanto escritora?
É muito bom receber o feedback dos leitores. Eu própria vibro sempre que gosto de um livro português e faço questão de ir logo falar com o autor e mostrar aquilo que senti. É óbvio que é muito bom quando a crítica é positiva e me faz corar de vergonha e sentir o coração aos saltinhos de tão feliz. E penso: “Esta pessoa está a falar de uma coisa que eu fiz, um livro que eu escrevi. Meu Deus! Como deu trabalho este livro! Mas valeu a pena”. Quando a crítica é menos positiva, (e felizmente ainda não recebi nenhuma completamente negativa, mas penso que lá chegarei, porque não podemos agradar a todos), desde que seja construtiva e não ofensiva, é indispensável para o crescimento de um autor.
Os blogs são muito importantes para a divulgação do trabalho dos autores e sinto-me privilegiada por ter sido lida e opinada por muitos e continuar a ser. Acho que são uma rampa de lançamento, principalmente para os principiantes, e é bom sabermos que estamos a ser opinados por verdadeiros críticos literários, pessoas que lêem muito e que estão dentro do mundo da literatura. 

É técnica de ginástica acrobática. Como concilia ambas as paixões no seu dia-a-dia?
Bem, eu diria que são dois trabalhos e duas paixões ao mesmo tempo, e é claro que gostaria de fazer mais dos dois, mas dá para conciliar muito bem. Aproveito sempre os tempos livres que tenho para fazer da escrita não um hobby, mas uma profissão, esquecendo, no entanto, as obrigações, e apelando sempre ao prazer.

A escrita é uma paixão ou uma vocação?
Penso que é as duas coisas: uma paixão, sem dúvida, porque me dá imenso prazer escrever, e uma vocação, também, porque sinto que devia tê-lo feito desde sempre. Sempre me senti à vontade a escrever e sempre fui uma sonhadora. Vivo muito lá em cima e a escrita é isso: transformar em palavras aquilo que sentimos e sonhamos e tornar sonhos realidade. 

Para terminar, deixe uma mensagem aos leitores do tertúlias.
Caros leitores, continuem a acompanhar as novidades do blog, as divulgações e as opiniões das obras e dos autores e nunca deixem de sonhar. Incentivem os vossos filhos a ler de pequeninos, porque um leitor vive mais do que uma vida e é feliz mais do que uma vez. Rimos e choramos mais do que a maioria que não sente um livro nas mãos, mas também amamos mais e somos mais solidários com os outros. Ler é ser melhor a cada dia, aprender a cada dia e amar mais do que uma pessoa e mais do que uma vez. Aproveitem para ler «O Intruso» e não se esqueçam que em Novembro deste ano um exemplar de «As Gotas de um Beijo» pode ser vosso. Não percam esta história de amizade e de amor, que ficará na vossa memória.